segunda-feira, 7 de junho de 2010

A Pronúncia do Norte

Agora que já chegamos a Junho e já se vê pessoas a ir de férias, lembrei-me das férias da minha infância. Durante alguns anos, mais ao menos por esta altura, ia para uma colónia de férias em Sintra. Eu adorava as duas semanas que passava lá (e acho que os meus pais também). Estava rodeada de natureza e conhecia sempre pessoas novas. Duas dessas vezes, a minha prima, três anos mais nova do que eu, veio comigo, uma vez que aquilo era a Colónia de Férias da Shell, a que apenas os filhos e netos dos funcionários da Shell podiam aceder (o nosso avô trabalhou na Shell durante anos). Para a colónia iam pessoas de todo o país (e, no último ano, até de Espanha) mas a maior parte era de Lisboa e arredores. Quando ia para lá eu já sabia o que me esperava: ia ouvir pessoas a gozar com o meu sotaque, que não é tão vincado como o de outras pessoas que conheço mas é notoriamente portuense. Tudo era pretexto para gozar, qualquer palavra que eu (e outras pessoas do norte) disesse e lhes soasse diferente era motivo de gozo. Aprendi a não lhes responder mas, a verdade, é que me incomodava. No último ano que fui para lá, as "meninas queques" decidiram gozar com a minha prima, pedindo-lhe para dizer a palavra "pouco" ("pôco" no sotaque lisboeta). Ela disse-a com o seu sotaque portuense o que provocou risadas naquelas meninas. Mas ela não se deixou ficar, e respondeu-lhes à letra: «Eu é que pronuncio bem a palavra, "pouco" escreve-se com "ou" e não com "o com acento circunflexo"». Imediatamente, os risos desapareceram da boca daquelas meninas e elas viraram costas sem nada dizer. Elas sabiam que a minha prima tinha razão.

E já que falo de sotaques, lembrei-me de um outro episódio da minha infância. Quando eu era miúda adorava ver a Rua Sésamo, que dava todos os dias quando vinha da escola. Lembro-me perfeitamente de me sentar no sofá na casa da minha avó a ver aquilo sem interrupções (cerca de 7/8 anos depois aconteceria o mesmo com o Dragon Ball, mas isso é outra história...). Uma das personagens era um pássaro gigante e laranja de seu nome Poupas, que podem ver na foto acima com o Ferrão e gata Tita (que inspirou o nome que eu própria dei à minha falecida gata). Passava-se o seguinte: os actores de carne e osso que participavam na Rua Sésamo (não me lembro de todos mas tenho a certeza que um deles era a Alexandra Lencastre) pronunciavam o nome com o sotaque lisboeta, ou seja, "Pôpas". Ora, eu era uma miúda de 6/7 anos e ainda não estava ciente das diferenças de sotaque, de maneira que, ao referir-me ao passáro, chamava-lhe "Pôpas". Durante anos, a minha mãe explicou-me que o nome era Poupas e que "Pôpas" era a forma como o nome era pronunciado pelos lisboetas. Mas eu ouvia todas as crianças da minha idade a chamar-lhe "Pôpas" e, portanto, chamava-lhe também assim.

Sempre me fascinou como um país tão pequeno como nosso pode ter não só duas línguas (para quem não sabe, o Mirandês tem o estatuto de língua oficial) como uma grande variedade de sotaques, mesmo dentro da mesma cidade (por exemplo: eu, que vivo em Matosinhos, tenho um sotaque ligeiramente diferente de alguém que viva, por exemplo, na Sé). E sempre me incomodou o facto de o sotaque de alguém ser objecto de gozo. E não acontece só entre crianças: quando estive em Paris como aluna Erasmus, na residência universitária onde vivia, havia vários portugueses e a verdade é que os do norte eram gozados pelos do sul. Para mim, a diversidade é algo de positivo e todos os sotaques devem ser respeitados. Eu nunca me envergonhei do meu sotaque e nunca o tentei esconder. Sou nortenha, sim senhor, e com muito orgulho!

Abaixo deixo-vos dois vídeos: um com a música cantada por Rui Reininho e Isabel Silvestre que dá título a este post; o outro é um sketch dos Gato Fedorento cujo tema é, precisamente, sotaques.



2 comentários:

  1. Confirmas que essa prima tua que respondeu às mourinhas...é a Catarina certo????

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  2. Exacto. A própria. Nesse dia ela foi a minha heroina.

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